25 janeiro, 2013

Mémoria Horas: O Bem Amado (1973)



Autoria: Dias Gomes
Supervisão: Daniel Filho
Direção: Régis Cardoso
Período de exibição: 22/01/1973 – 05/10/1973
Horário: 22h
Nº de capítulos: 178




TRAMA PRINCIPAL - Adaptação de Dias Gomes de sua peça Odorico, O Bem-Amado e Os Mistérios do Amor e da Morte (1962), a novela criticava o Brasil do regime militar, satirizando o cotidiano de uma cidade fictícia no litoral baiano e a figura dos chamados coronéis – políticos e fazendeiros que exerciam autoridade sobre a população local e agiam com força, falta de escrúpulos e demagogia para se perpetuar no poder. Foi a primeira telenovela a cores da televisão brasileira.
- O “bem-amado” em questão é o corrupto e demagogo Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), candidato a prefeito de Sucupira, adorado pela maior parte da população. Como não há um cemitério na cidade, o que obriga os moradores a enterrar seus mortos em municípios vizinhos, o político se elege com o slogan “Vote em um homem sério e ganhe um cemitério”. O problema é que não morre ninguém para que a obra seja inaugurada. O prefeito resolve, então, lançar mão de todo tipo de artifício para não perder o apoio popular, até mesmo consentir a volta à cidade do matador Zeca Diabo (Lima Duarte), com a garantia de que ele não será preso. Há a esperança de que ele mate alguém e lhe arranje um defunto. O prefeito só não imaginava que Zeca Diabo volta a Sucupira disposto a nunca mais matar ninguém, pois quer virar um homem correto.
- Odorico tem como aliados as irmãs Cajazeira – Dorotéia (Ida Gomes), Dulcinéia (Dorinha Duval) e Judicéia (Dirce Migliaccio), apaixonadas pelo coronel – e Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz), seu fiel secretário pessoal. Mas o prefeito também sofre com fortes opositores a sua administração corrupta, como a família Medrado, tendo à frente Donana (Zilka Sallaberry) – delegada em exercício na cidade depois que seu marido, o delegado Joca Medrado (Ferreira Leite), ficou paraplégico –; o médico Juarez Leão (Jardel Filho); o jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella); e o dentista Lulu Gouveia (Lutero Luiz).
- A urgência em inaugurar o cemitério leva Odorico a lançar mão de vários ardis. Ele decide trazer para Sucupira um primo das irmãs Cajazeira, Ernesto (André Valli), desenganado pelos médicos, com a esperança de que ele morra na cidade. Mas Lulu Gouveia (Lutero Luiz), Donana Medrado e sua neta, Anita (Dilma Lóes), “roubam” o doente e conseguem curá-lo com a ajuda do Dr. Juarez. Para piorar a situação, as aventuras e artimanhas em que Odorico se envolve começam a enfraquecê-lo politicamente, o que torna a inauguração do cemitério ainda mais urgente. É quando Odorico tem a ideia de convidar o matador Zeca Diabo para voltar à cidade. Mas o prefeito acaba ficando irritado, já que Zeca não mata ninguém. Ele deixa escapar com vida até mesmo o trambiqueiro Jairo Portela (Gracindo Jr.), que tentara agarrar à força sua sobrinha, Mariana (Teresa Cristina Arnaud). Odorico contou-lhe o ocorrido, incitando-o a matar o cafajeste, de quem queria livrar-se. Mas Zeca Diabo consegue se conter. Ao perceber que deixou Zeca Diabo retornar a Sucupira em vão, Odorico exige que Donana Medrado prenda o cangaceiro, ainda na esperança de que alguém morra na operação. Joca Medrado pede ajuda da capital, e uma tropa é enviada como reforço, fazendo um cerco à casa de Zeca Diabo. Ele atira para todos os lados, mas quem mata um soldado é seu filho, Eustórgio (João Carlos Barroso). Todos, porém, acreditam que os disparos foram feitos pelo cangaceiro, e ele é preso. O corpo do soldado morto é enviado a Salvador pelo médico Juarez. A imprensa cobre a confusão, e uma reportagem sobre o caso é publicada em um jornal da capital, com uma menção ao fato de que a denúncia partiu de Odorico. Zeca Diabo é preso, mas logo depois foge.
- Diante de mais essa tentativa fracassada, o prefeito alimenta o confronto entre os Cajazeiras e os Medrados, de olho em possíveis defuntos. Institui o “Dia do Aperto de Mão”, com a falácia de promover um encontro pacífico entre as duas famílias, mas, por debaixo dos panos, incita o ódio entre os rivais. O barbeiro Demerval (Nanai) morre baleado durante o conflito, mas o político não consegue enterrá-lo na cidade, pois Lulu Gouveia, o coronel Emiliano Medrado (Rafael de Carvalho) e seus jagunços raptam o corpo e o sepultam em uma cidade vizinha. Em outra ocasião, há o início de uma epidemia de tifo em Sucupira, e Odorico tenta impedir a chegada das vacinas: desta vez, ele não pensa na inauguração do cemitério com as possíveis vítimas fatais da doença, mas em criar um posto de vacinação e ficar com os louros por ter salvo a população de uma epidemia. Entre outras arbitrariedades e abusos de poder, Odorico, a certa altura, atenta contra a liberdade de imprensa ao mandar fechar e destruir o jornal da cidade, A Trombeta, de propriedade do jornalista Neco Pedreira. O estopim é a publicação de uma entrevista com o médico Juarez Leão, no qual ele denuncia as ações do prefeito. Em outra ocasião, Odorico baixa uma portaria obrigando os donos de animais quadrúpedes a colocarem fraldas em seus bichos.
- É um escândalo político, porém, que joga por terra todos os planos do prefeito. Trata-se do “Sucupiragate”, em que Odorico é acusado de espionagem por mandar instalar um microfone no confessionário da igreja para descobrir os segredos de seus inimigos. Com a armação, ele também tem acesso às histórias picantes e tragicômicas dos moradores. O crime, descoberto pelo padre, estampa a primeira página do jornal local, com a manchete: “Espionagem no confessionário”. As gravações se tornam públicas, e a crise é inevitável.
- A situação se complica quando Dirceu Borboleta, encarregado das escutas, descobre que o prefeito é o verdadeiro pai de seu filho com Dulcinéia Cajazeira, com quem se casara. Transtornado, Dirceu estrangula a esposa e é preso. O prefeito não consegue sequer aproveitar a situação para inaugurar o cemitério com o enterro de Dulcinéia, pois Judicéia e Dorotéia enviam o corpo da irmã para o jazigo da família em outra cidade.
- O escândalo enfraquece Odorico Paraguaçu politicamente, e o povo de Sucupira se insurge contra ele, tendo à frente os membros da oposição liderada por Donana Medrado e Neco Pedreira, que articulam seu impeachment. Desesperado, Odorico conta apenas com a ajuda de Dorotéia e Judicéia que, embora o considerem culpado pela morte da irmã, ficam ao seu lado para que Donana Medrado – de quem são inimigas mortais – não ganhe o jogo político.
- Odorico tem a ideia de simular um atentado contra si mesmo, jogando a culpa do crime na oposição e passando de réu à vítima. O prefeito faz uma combinação com Zeca Diabo para que o ex-matador o ajude no plano. Mas Zeca, que havia se alfabetizado com a ajuda de Dorotéia, lê em um jornal da capital, enviado a ele por Lulu Gouveia, que o prefeito fora o responsável pela falsa acusação que o pôs na cadeia, por conta de um assassinato que não cometeu. Sentindo-se traído, Zeca Diabo vai até o gabinete do prefeito e o mata com três tiros. O enterro de Odorico inaugura o cemitério de Sucupira, com direito a discurso de Lulu Gouveia elogiando o morto. Ironicamente, Zeca Diabo realiza o que Odorico tanto queria: providenciar o primeiro defunto para o cemitério. Em seguida, Zeca Diabo despede-se da família e parte novamente de Sucupira.
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TRAMAS PARALELAS
As artimanhas de Odorico
- Homem sem cultura, mau-caráter e obcecado pelo poder, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) não tem uma boa relação com os filhos. Telma (Sandra Bréa) o decepciona ao se apaixonar por um de seus inimigos, o médico Juarez Leão (Jardel Filho), e com Cecéu (João Paulo Adour) ele só vive discutindo. O relacionamento entre pai e filho fica ainda mais complicado quando ambos disputam o amor de Adalgisa (Maria Cláudia). Mas Odorico abre mão da paixão por causa do filho.
- O prefeito se considera viúvo. Sua mulher, Rosa Paraguaçu (Geny do Amaral) – que também pertencia à família Cajazeira –, o traía com o pai de Anita Medrado (Dilma Lóes), neta de Donana Medrado (Zilka Sallaberry) e de Joca Medrado (Ferreira Leite), seus inimigos. Ao descobrir a infidelidade, o prefeito expulsa a mulher de casa e manda seus capangas matarem o pai de Anita. Zora Paraguaçu (Ana Ariel), irmã de Odorico, conta para Telma que seu pai deu dinheiro a Rosa para ela sair de casa, mas ele nega. Diz que a mulher foi embora por conta própria e ainda inaugura uma praça em homenagem a ela.

Zeca Diabo
- Zeca Diabo nasceu em Sucupira, mas passa anos no cangaço, fugindo da polícia, acusado de várias mortes. Seu primeiro assassinato ocorreu 20 anos antes, quando matou um coronel que desonrou sua irmã caçula, Jaciara (Valéria Amar). O matador é temido por todos, e sua fama lhe rendeu até um cordel, que narra suas ações, apresentando-o como um herói. Dorotéia Cajazeira (Ida Gomes) percebe o lado terno do bandido e se apaixona por ele, oferecendo-se para ensiná-lo a ler. Ele se dedica inteiramente aos estudos, sonhando tornar-se educado e honesto, e também começa a trabalhar como assistente de Lulu Gouveia (Lutero Luiz), o dentista da cidade, com o objetivo de se tornar “doutô cirurgião-dentista”.


As irmãs Cajazeiras
- As irmãs Cajazeiras formam um trio divertido de solteironas sexualmente reprimidas, que mal disfarçam a hipocrisia. Em público, são avessas a imoralidades e posam de damas corretas. Na intimidade, compactuam com o assédio e as artimanhas de Odorico (Paulo Gracindo), de quem são fiéis aliadas. Seduzidas por promessas de casamento, mantêm relacionamentos amorosos com o prefeito, sem desconfiarem umas das outras.
- Dorotéia (Ida Gomes) se apaixona pelo matador Zeca Diabo (Lima Duarte) e o ensina a ler. Dulcinéia (Dorinha Duval) se casa com Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) para abafar que está grávida de Odorico, e é morta pelo marido depois que ele descobre ter sido enganado. Judicéia (Dirce Migliaccio), a Juju, chega a ficar noiva do primo Ernesto (André Valli), mas fica decepcionada ao descobrir que ele é casado e pai de quatro filhos. O primo vai embora, e Juju fica arrasada por ter sido enganada. Em seguida, ela conquista alguns admiradores, como Nezinho do Jegue (Wilson Aguiar), que escreve cartas de amor anônimas para ela, e Maestro Sabiá (Apolo Correia), que consegue permissão para cortejá-la.
Dirceu Borboleta
- Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) é mais uma das vítimas de Odorico (Paulo Gracindo). O prefeito descobre que Dulcinéia Cajazeira (Dorinha Duval), com quem mantinha um relacionamento, está grávida, e arma uma situação para que ela se case com seu secretário, livrando-se de uma mancha na sua reputação. Tudo é arranjado sem que Dirceu desconfie de nada: Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella) recebe uma carta anônima contando que Dulcinéia e Dirceu passaram a noite juntos e publica a notícia em seu jornal, A Trombeta. A situação leva Dirceu a pedir a mão da Cajazeira em casamento. Só depois de casados Dulcinéia descobre que Dirceu fez voto de castidade. Mas, com a ajuda do prefeito, inventa que ele é sonâmbulo e teria feito amor com ela, o que justificaria sua gravidez. Alguns meses depois, ela dá à luz um menino. Dirceu acredita que o filho é seu e, ao descobrir a infidelidade, mata a esposa e é preso.

O médico e a filha do prefeito
- Médico recém-chegado a Sucupira, Juarez (Jardel Filho) atende em um consultório no posto médico da cidade, chamado de Posto de Higiene. Ele logo se torna um dos inimigos de Odorico (Paulo Gracindo) por zelar pela boa saúde dos cidadãos e, portanto, ser mais um a atrapalhar a inauguração do cemitério. O prefeito chega a pensar que ele é um espião, a serviço de Moscou, uma sátira do autor às posições radicais dos que culpavam os subversivos e comunistas pelas mazelas nacionais. No caso de Odorico, Juarez representaria as forças ocultas que impediam a inauguração do cemitério. A ponto de, numa conversa com a filha, Telma (Sandra Bréa), ele dizer: “Essas coisas não são fáceis de entender pra quem não navega nos maquiavelismos da beligerância psicológica. É preciso ter um sétimo sentido para entender os diabolismos de que eles lançam mão para minar as estruturas”. Acontece que Telma, a filha do prefeito, é apaixonada por Juarez, que conheceu ainda em Salvador, quando ele era seu vizinho e a socorreu certa vez. Mas o médico não consegue corresponder ao amor da jovem, porque ainda sofre com o falecimento de sua esposa, Lúcia (Analy Alvarez), que morreu na sua frente, durante uma cirurgia. Além disso, Juarez responde a um inquérito por homicídio. Em cenas de flashback, aparece atirando em um homem de jaleco.
- Telma chega a namorar o jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), que usa seu jornal, A Trombeta, para fazer oposição a Odorico. A filha do prefeito, porém, termina a novela com Juarez.

Jairo e Adalgisa
- Jairo (Gracindo Jr.) deixa o Rio de Janeiro e chega a Sucupira, acompanhado de sua mulher, Adalgisa (Maria Cláudia), disposto a aplicar golpes na população local. O trambiqueiro se aproxima de Odorico (Paulo Gracindo) e se oferece para administrar a pesca na cidade. Quem mais sofre com suas trapaças são os pescadores. Eles acreditam na honestidade do vigarista e aceitam comprar seus barcos a prazo, mas com o tempo descobrem terem caído em um golpe. Na verdade, o contrato que assinaram não dizia em nenhum momento que o dinheiro se destinaria à compra, mas ao aluguel de barcos. Jairo também abusa de Mariana (Teresa Cristina Arnaud), sobrinha de Zeca Diabo (Lima Duarte), beijando-a à força. Desconfiada do marido, Adalgisa deixa Jairo e, a convite de Odorico, fascinado por sua beleza, vai morar na casa dele. Desgostosa com Jairo, pede o desquite. Ela se aproxima do filho de Odorico, Cecéu (João Paulo Adour), com quem tem um romance. Depois de muitos golpes, Jairo é preso por estelionato.

O filho do prefeito
- Cecéu (João Paulo Adour) é um jovem irresponsável e inconsequente que vive discutindo com o pai, Odorico (Paulo Gracindo), mas que tira proveito do fato de ser filho de prefeito. Preso em Salvador, vai parar na delegacia de Sucupira e desafia a autoridade de Donana Medrado (Zilka Sallaberry), vangloriando-se por ser filho do “manda-chuva do lugar”. Ele sai da prisão e volta para a casa do pai, mas continua a arrumar problemas. Junto com o amigo hippie Nadinho (Jorge Botelho), coloca fogo no jornal que cobria Nezinho do Jegue (Wilson Aguiar) enquanto este dormia. O mendigo é salvo por Juarez (Jardel Filho). Cecéu tem um caso com Mariana (Teresa Cristina Arnaud), filha do Mestre Ambrósio (Angelito Mello), e depois se envolve com Adalgisa (Maria Cláudia).

A família Medrado
- Há sete anos, Joca Medrado (Ferreira Leite) ficou paraplégico em serviço quando tentava acabar com a guerra entre os Medrados e os Cajazeiras. Sua mulher, Donana (Zilka Sallaberry), assumiu extraoficialmente o cargo, mas o marido continuou à frente das decisões. É Donana quem fica na delegacia, tendo como fiel escudeiro o cabo Ananias (Augusto Olímpio). A delegada interina culpa Hilário Cajazeira (Álvaro Aguiar), tio das irmãs Cajazeira – Judicéia (Dirce Migliaccio), Dulcinéia (Dorinha Duval) e Dorotéia (Ida Gomes) –, pelo estado do marido. Apesar da ocorrência, Joca se orgulha de ter pacificado a cidade. Depois do incidente, os Cajazeiras se mudaram da cidade, mas as três irmãs permaneceram em Sucupira.
- Joca e Donana apoiaram a candidatura de Lulu Gouveia (Lutero Luiz) porque temiam que, com a eleição de Odorico (Paulo Gracindo), os Cajazeiras voltassem à cidade. Odorico é eleito, mas o delegado não perde o cargo. Ainda assim, ele e Donana continuam fazendo oposição ao político, que julgam ser responsável pela morte do pai de sua neta, Anita (Dilma Lóes). Donana chega a propor, na Câmara dos Vereadores, o impeachment do prefeito, alegando que o dinheiro público foi gasto e “enterrado” na construção de um cemitério.
- Anita Medrado é uma das grandes vítimas da guerra entre as duas famílias. Noiva do jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella) – depois que este rompe o relacionamento com Telma (Sandra Bréa) –, Anita morre após ser baleada durante uma briga entre os Medrados e os Cajazeiras. A família decide enterrá-la em Salvador, para desgosto do prefeito.

Zelão das Asas
- Zelão das Asas (Milton Gonçalves) representa uma metáfora da busca por liberdade política e de expressão em plena ditadura dos anos 1970. A última cena da novela é protagonizada pelo pescador que, finalmente, consegue voar com as asas construídas por ele durante toda a história.
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Fotos:

Lima Duarte. Cedoc/ TV Globo  Augusto Olímpio, Paulo Gracindo e Zilka Salaberry. Cedoc/ TV Globo

Emiliano Queiroz. Cedoc/ TV Globo   Ida Gomes, Dorinha Duval e Dirce Migliaccio. Cedoc/ TV Globo

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